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26 out

Cultura, um conceito Antropológico

Antropologia Por: Jason Jr. Comentários

Você pode baixar o PDF completo com esta resenha e as questões aqui.

 O mineiro, nascido em 1932, Roque de Barros Laraia é Pós-Doutor pela Universidade de Sussex (Inglaterra), Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e Bacharel em História pela Universidade de Minas Gerais.

Pela USP ele teve a oportunidade de fazer pesquisas de campo entre indígenas. Começou sua carreira como Antropólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e desde 1992 é professor da Universidade de Brasília.

Sendo hoje professor emérito da UnB e também membro do Conselho Nacional de Imigração e do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O livro foi impresso e distribuído pela Editora Zahar, pioneira na publicação de livros de ciências humanas e sociais no Brasil, com mais de 60 anos de existência. A publicação de apenas 117 páginas, atingiu 24 reimpressões até 2012.

O autor faz algumas considerações iniciais para apresentar a proposta e o conteúdo do livro, sendo assim, nós vamos pontua-las aqui para dar início a nossa resenha.

Vale ressaltar que o Conceito de Cultura é tema central dos debates antropológicos nos últimos 100 anos. Quem quiser se aprofundar no tema, é aconselhável buscar a bibliografia mais especializada, indicada pelo próprio autor no final do livro.

Afinal esta obra tem o objetivo de atingir os estudantes dos primeiros períodos dos cursos universitários das ciências humanas e sociais, por isso trata-se de um material com uma proposta didática e simples, em uma tentativa (muito bem-sucedida) de facilitar o entendimento sobre a Cultura como um conceito Antropológico.

O livro é dividido em 2 partes:

• O desenvolvimento do conceito de cultura a partir do Iluminismo até os autores modernos;
• Como a cultura influencia o comportamento social e diversifica a humanidade;

 

1. Da Natureza da Cultura ou Da Natureza à Cultura

“A natureza dos homens é a mesma, são os hábitos que os mantem separados.” – Confúcio

O autor também cita Heródoto - pensador grego considerado “Pai da História” -, para ele um homem que conhecesse todos os costumes vividos por outros ainda assim acabaria preferindo os seus próprios, pois estará convencido que estes são melhores.

Além do grego, Laraia ainda cita as observações de Tácito – cidadão romano – em relação aos hábitos dos germanos. Também citou os relatos do viajante italiano Marco Polo, com suas considerações sobre os Tártaros. Além de lembrar os escritos do padre José de Anchieta e de Montaigne, no século XVI ao falarem sobre os costumes Tupinambá.

Por fim, o autor apresenta outros pensadores que observaram e se surpreenderam com os hábitos diversos, em lugares e períodos distintos, questionando e procurando entendimento sobre a formação destes hábitos.

 

1.1. Determinismo Biológico

O autor começa o capítulo criticando os estereótipos culturais, repetidos inúmeras vezes, de forma pejorativa, tais como: “os alemães têm mais habilidades para mecânica” ou “os norte-americanos são empreendedores e interesseiros” ou “que os nórdicos são mais inteligentes que os negros”. Dentre outros exemplos de falas de pesquisadores do século XIX que acreditavam que só era possível haver civilização e cultura em povos que viviam acima da linha do equador, por exemplo.

Nesta parte o autor deixa bem claro que as diferenças culturais não são determinadas pelas diferenças genéticas.

“Não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais” – Felix Keesing

A exemplo da fala de Keesing, Laraia nos apresenta a seguinte situação: “Se transportarmos para o Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja, ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação.”

O autor ainda lembra que é falso afirmar que as diferenças de comportamento entre pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. Em muitos casos as atividades atribuídas exclusivamente para mulheres em uma cultura, podem ser determinadas para os homens em outra. Sendo assim, qualquer sistema de divisão sexual do trabalho é determinado culturalmente.

“O comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo que chamamos de endoculturação” – Laraia

 

1.2. Determinismo Geográfico

Neste capítulo temos a critica direta aos estereótipos culturais e étnicos determinados geograficamente, como vimos nas frases destacadas do princípio do capítulo anterior.

Desde a antiguidade, acreditava-se que as diferenças de ambiente e clima condicionavam a diversidade cultural. Até que em 1920 os antropólogos rejeitaram esta perspectiva, provando que é possível e normal existir diversas culturas em um mesmo ambiente.

Sendo assim, o autor diz que as diferenças entre os homens não podem ser explicadas pelas limitações geográficas e biológicas impostas a eles.

“Um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas, dominou os ares, sem guelras ou membranas próprias, conquistou os mares. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui Cultura.” – Laraia

 

1.3. Antecedentes Históricos do conceito de Cultura

O conceito de cultura, de acordo com o autor, foi definido a primeira vez pelo inglês Edward Tylor (1832-1917), que incluía “conhecimentos, crenças, artes, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.” Mas vale lembrar que Tylor apenas formalizou o conceito que já havia sido debatido e vinha sendo desenvolvido por outros pensadores como o inglês John Locke – pai do Liberalismo e precursor do Iluminismo – ou como o iluminista francês Jean-Jacques Rousseau que atribuiu um grande papel à educação.

Passado mais de um século após as definições de Tylor, poderíamos esperar um acordo entre os antropólogos sobre o conceito de Cultura atualmente, mas foram criadas inúmeras definições deste conceito após os estudos do pensador inglês.

Devido a essa diversificação Laraia nos apresenta a fala do antropólogo Kroebre, em 1950: “a maior realização da antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação do conceito de cultura.”, assim como ele citou Geertz que escreveu em 1973 que o item mais relevante para a antropologia moderna era o de “diminuir a amplitude do conceito e transforma-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente.”

De acordo com o autor, “o homem é o único ser possuidor de cultura”.

 

1.4. O Desenvolvimento do Conceito de Cultura

Como vimos anteriormente, o conceito passou a ser definido a partir do trabalho de Tylor. Mas foi no século XX que os antropólogos conseguiram desenvolver ramificações para ele. Por exemplo as críticas de Stocking em 1968, em relação ao conceito de Tylor por “deixar de lado toda a questão do relativismo cultural e tornar impossível o moderno conceito de cultura.”

O autor cita a visão do alemão Franz Boas, que acreditava na teoria do particularismo histórico, “segundo o qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou.”

Voltando a falar de Kroeber, ele lembra que para se manter vivo o homem depende do sistema cultural ao qual pertença. Tendo que satisfazer algumas funções fisiológicas vitais. “como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual, etc. Mas embora estas funções sejam comuns a humanidade, a maneira de satisfaze-las varia de uma cultura para outra.”

Afirmando ainda que é devido a grande variedade de operações para satisfazer um numero tão pequeno de funções vitais que faz do homem um ser cultural.

“Os seus comportamentos não são biologicamente determinados. A sua herança genética nada tem a ver com as suas ações e pensamentos, pois todas os seus atos dependem inteiramente de um processo de aprendizagem.” – Laraia

Lembramos que o homem é o resultado do meio cultural que ele vive, sendo ele um “herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiencia adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam.”

Laraia continua fazendo referencias a Kroeber e a partir das palavras dele é possível analisar e apresentar de forma sucinta que:

“Não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de maneira revolucionária.” – Kroeber

O capitulo termina com a análise de dois tópicos:

• Os instintos humanos – ainda existentes, apesar de serem em boa parte suprimidos pelo desenvolvimento cultural;
• A cultura como processo cumulativo – usando como fator primordial a comunicação, ou seja, ela é produto da cultura, mas não existira cultura se o ser humano não tivesse a possiblidade de criar um sistema de comunicação oral.

 

1.5. Ideia sobre a Origem da Cultura

Para Kenneth P. Oakley a cultura seria o resultado de um cérebro mais complexo e volumoso. Já para Lévi-Strauss a cultura surgiu a partir do momento em que o ser humano convencionou as primeiras regras e hábitos. Porém para o americano Leslie White toda cultura depende de símbolos e sem eles não haveria cultura, pois, nosso comportamento é simbólico.

“Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente quando é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorganicas que é a cultura. E a chave deste mundo, e o meio de participação nele, é o símbolo.” – White

Sabemos assim que o desenvolvimento biológico foi fundamental para a expansão do nosso cérebro, possibilitando a criação e a interpretação de símbolos, e principalmente para a comunicação oral e o acumulo de conhecimentos.

 

1.6. Teorias Modernas sobre Cultura

“Os antropólogos sabem de fato o que é cultura, mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento” – Murdock (1932)

 

2. Como Opera a Cultura

2.1. A Cultura condiciona a visão de mundo do Homem

Já no primeiro capitulo desta parte Laraia cita os pensamentos de Ruth Benedict para entendermos a cultura como a visão do homem sobre o mundo, assim então ele escreveu:

“Cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, tem visões desencontradas das coisas” – Laraia

E citando o próprio autor podemos perceber que a cultura é geralmente etnocêntrica, como ele mesmo afirma ao citar Heródoto no inicio do Livro.

“A nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem gora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade” – Laraia

Ou

“O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais”. – Laraia

O autor encerra o capitulo afirmando que os etnocentrismos resultam em depreciações dos costumes culturais de outros povos.

“Praticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdos, deprimentes e imorais.” – Laraia

 

2.2. A cultura interfere no plano Biológico

O autor nos apresenta um breve conceito de Apatia Cultural, explicando que ela ocorre quando um povo perde a motivação e a fé na sua própria cultura, não vendo mais sentidos para se manterem vivos.

Outro fator descrito por Laraia são as crenças em curas ou doenças sem qualquer comprovação cientifica. Como o desenvolvimento de sentimento de sintomas de doenças por medo da morte, ou até mesmo acreditar que a combinação de manga com leite pode causar a morte de alguém.

 

2.3. Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura

“Nenhuma pessoa é capaz de participar de todos os elementos de sua cultura. Este fato é tão verdadeiro nas sociedades complexas com um alto grau de especialização, quanto nas simples, onde a especialização refere-se apenas às determinadas pelas diferenças de sexo e idade” – Laraia

A respeito disso, vale destacar a analise feita pelo próprio autor sobre o assunto:

“Um medico pode desconhecer qual a melhor época do ano para o plantio do feijão, um lavrador certamente desconhece as causas de certas anomalias celulares, mas ambos conhecem as regras que regulam a chamada etiqueta social no que se refere as formas de cumprimentos entre as pessoas de uma mesma sociedade.” – Laraia

 

2.4. A cultura tem uma lógica própria

De acordo com Laraia, todos os sistemas culturais têm a sua própria lógica. E admite que é etnocentrismo a tendência humana de considerar apenas a lógica do seu próprio sistema e atribuir aos outros um alto grau de irracionalismo.

“A coerência de um habito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence.” – Laraia

 

2.5. A cultura é dinâmica

“Existem dois tipos de mudança cultural: uma que é interna, resultado da dinâmica do próprio sistema cultural, e uma segunda que é o resultado do contato de um sistema cultural com outro.” – Laraia

A cultura também pode sofrer alterações devido a eventos históricos, como catástrofes naturais, alguma grande invenção tecnológica ou algum conflituoso contato cultural.

É preciso entender que todo sistema cultural está sempre em mudança, para evitar comportamentos preconceituosos no choque entre as gerações.

“Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema” - Laraia

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