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15 mar

Hipátia e a perseguição mortal em Alexandria

História Antiga Por: Jason Jr. Comentários

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A história de Hipátia é muito mais do que somente a biografia de uma intelectual da antiguidade romana.

Neste artigo é possível entendermos que mesmo com influência, conhecimento e destaque na sociedade, há inúmeras dificuldades e perseguição às mulheres fortes e independentes. Além de ser um exemplo de vítima da intolerância religiosa e servir de modelo para entendermos a importância do Estado Laico.

É preciso compreender que uma ideologia política ou religiosa quando assume os poderes de uma sociedade tende a se tornar ditatorial, intolerante e preconceituosa. Perseguindo e eliminando todos aqueles que podem contrariar seus ideais. Em nenhum momento da história estes poderes buscaram bem estar social, empatia e harmonia para a população dominada.

Sendo geralmente contra a liberdade, a individualidade, a democracia, o pensamento livre e a construção do conhecimento.

As mulheres da antiguidade mediterrânica tinham raras oportunidades de buscar por conhecimento - Filosofia; Política; Matemática; História; Astronomia, Conhecimentos militares; Diplomacia; Linguagens; Conhecimentos Navais; etc - Mas Hipátia era filha de Théon de Alexandria, um importante filosofo e astrônomo da época, apaixonado por comentar e estudar as obras de Euclides, incentivando e envolvendo a filha em seus trabalhos e apresentações.

Provavelmente nascida em 351 ou 370 d.C., considerada a primeira matemática que se tem conhecimento, Hipátia (Ὑπατία) de Alexandria também era filosofa, professora, conferencista e atleta. Buscava os ideais neoplatônicos de liberdade de pensamento, com uma dedicação impressionante, seguindo o pensamento filosófico grego de corpo são e mente sã.

Não há registros de que Hipátia tenha tido algum companheiro ou formado família, acreditamos que a estudiosa fez uma espécie de voto celibatário.

Estudou na Academia de Alexandria durante alguns anos e completou seus estudos na Academia Neoplatônica na Grécia, onde se destacou e retornou para o Egito como professora da Academia de origem. Alguns anos mais tarde foi nomeada Diretora da instituição.

Por toda sua dedicação e paixão pelos seus estudos e pelo trabalho de Théon, a nossa personagem histórica passa a ser mentora e conselheira da aristocracia alexandrina. Na maioria homens de famílias poderosas na estrutura política, religiosa e militar do Império Romano no século IV e V.

Também foi admirada por outros intelectuais da época. A exemplo do filósofo Damacius e do historiador grego Sócrates Escolástico.

"Ela não se contentou com a educação matemática que poderia receber de seu pai. Seu nobre entusiasmo a conduziu a outras fronteiras da filosofia."
- Damacius -

"Obteve tais conhecimentos em literatura e ciência, que sobrepassou muito todos os filósofos de sua época. Explicava os princípios da filosofia aos ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber sua instrução."
- Socrátes Escolástico -

Hipátia foi uma das pessoas responsáveis pela invenção do astrolábio, instrumento naval usado até o século XIX para determinar a altura do Sol e das estrelas e medir a latitude e longitude do lugar onde está o observador. Também ajudou a projetar o hidroscópio, um antepassado do hidrometro, usado para medir líquidos e encontrar lençóis freáticos.

Mas Théon e sua filha viviam no período pós I Concílio de Niceia (325 d.C.) quando o Império Romano passa por inúmeros conflitos políticos e religiosos, devido a sua grande extensão e a agressividade do cristianismo contra judeus e representantes dos antigos cultos politeístas do mediterrâneo.

Em meio a estes conflitos, tivemos a divisão entre Roma e Constantinopla em 364 d.C., a determinação imposta pelo Imperador Teodósio I em tornar o cristianismo a religião oficial do Império e as ordens de destruição de todos os templos não cristãos em todos os territórios romanos em 391 d.C.

As ordens do Imperador e do Patriarca de Alexandria, Teófilo, incluíam a demolição do Templo de Serápis, onde Théon guardava os últimos pergaminhos da Antiga Biblioteca de Alexandria (queimada na invasão romana durante o governo de Cleópatra VII por volta de 48 a.C.), com todos os pergaminhos de Euclides e boa parte da produção de conhecimento daquele período, inclusive do próprio guardião e de sua filha.

Alguns admiradores de Hipátia ainda tentaram articular alternativas para o processo de cristianização de Alexandria, inclusive o Bispo de Cirene (região vizinha ao Egito, no Norte da África). Sinésio era um bispo de confiança do Patriarca de Alexandria e foi aluno de Hipátia, ficando famoso por mesclar o pensamento neoplatônico com a doutrina da trindade cristã.
Em espaços públicos, como as antigas Ágora gregas, Hipátia falava sobre Platão e Aristóteles para quem quisesse ouvir e defendia o pensamento livre e o debate filosófico para a construção do conhecimento. Tendo como ponto forte a oratória e a retórica.

Alexandria era governada pelo Prefeito Imperial, Orestes, que nutria uma imensa admiração pela diretora da Academia de Alexandria e conseguia conter os ataques do Bispo Teófilo contra as ideias neoplatônicas da filosofa, que apresentava claramente discursos e pensamentos contrários a dominação cristã.

Mas em 412 d.C. com o falecimento de Teófilo, seu sobrinho Cirilo assumiu o patriarcado de Alexandria com maior hostilidade contra os não cristãos da região. Estabelecendo uma disputa por ordem e poder na cidade, entre o novo Patriarca e o Prefeito Imperial.

Mesmo sendo cristão, Orestes não queria dar poderes e força para a Igreja, mantendo o controle da cidade em suas mãos.

Em um conflito entre judeus extremistas e cristãos houve um massacre e Cirilo ordenou a expulsão de todos os judeus da cidade. Deixando Orestes furioso e levando-o a comunicar a interferência do Patriarca ao governo de Constantinopla.

Cada vez mais o cristianismo dominava a cidade através de discurso de ódio e práticas violentas incentivadas pelo Patriarca de Alexandria e ignorado pelo poder político romano.

Em meio ao clima tenso que se seguiu, Orestes foi acusado de não ser um verdadeiro cristão e de ser influenciado por Hipátia contra a igreja. Pois ela era politeísta e pregava constantemente contra Cirilo e a Igreja.

Após inúmeras críticas e ameaças, o Prefeito Imperial abandonou o apoio e a defesa que dava a Hipátia. Pedindo para que ela abandonasse as suas práticas intelectuais e convertesse ao cristianismo, deixando os deuses antigos. Mas forte e guerreira, ela recusou a proposta do ex-aluno e admirador.

Enfim, em 8 de março de 415 d.C. uma turba de cristãos furiosos cercaram a carruagem de Hipátia e a arrastara, até uma igreja próxima, retiraram sua túnica e a espancaram até a morte. Para finalizar o ato, o grupo arrancou a pele dela com conchas e cacos de telha para logo depois esquartejá-la e grotescamente simularem um ritual de oferenda aos deuses antigos como forma de deboche e ainda queimaram os restos mortais da filosofa.

Após o assassinato de Hipátia e o falecimento do Patriarca de Alexandria, a Igreja o santificou por ter conseguido cristianizar o Egito, tornou-se São Cirilo de Alexandria.

Hoje Hipátia é um dos símbolos do feminismo e a data da sua morte coincide com a tragedia de 1857 em Nova York, onde mulheres protestavam por mais igualdade de direitos e foram massacradas pela polícia. Por causa de Hipátia e de outras centenas de mulheres que lutaram por igualdade e liberdade, o dia 8 de março foi oficializado como o dia Internacional da Mulher, mas somente a partir 1975 pela ONU.

Depois de muitos séculos a Igreja Católica reconheceu as suas antigas atrocidades e pediu perdão por muitos de seus atos criminosos contra a humanidade. O principal porta voz deste discurso de perdão foi o Papa João Paulo II que pregava a paz e a harmonia, lutando até mesmo pela libertação de países soviéticos durante a Guerra Fria.

O sucesso de João Paulo II, Bento XVI, reconheceu e elogiou, em 2007, o governo de Cirilo de Alexandria e ordenou a construção da Igreja de São Cirilo em Roma. Mas recentemente foi erguido um jardim aos arredores da Igreja e nomeado de Hipátia, para nunca esquecermos desta história.

Em 2009 foi lançado o filme Alexandria (Ágora), uma produção espanhola que conta a história de Hipátia. Uma produção cinematográfica de alta qualidade e com uma avaliação de 85%. Mesmo sendo proibido no Egito e tendo sofrido com a censura religiosa na Itália e nos Estados Unidos.

Vale deixar claro que a Igreja, o cristianismo e a humanidade passou por inúmeras experiencias e transformações até chegarmos no momento atual, que é marcado por intensas mudanças e debates. Hoje a mulher ainda passa por diversas dificuldades, mas tem muito mais voz e participação na sociedade, principalmente por todas aquelas que lutaram por liberdade e igualdade anteriormente na nossa história. Temos muito o que aprender e lutar ainda.

Hipátia é homenageada também por pesquisadores da atualidade, na Universidade do Minho e na Universidade de Coimbra, ambas em Portugal, que criaram um projeto de ensino da matemática através de um site na internet. Recebendo o nome de hypatiamat (clique aqui para acessar o site do projeto) e atendendo estudantes e professores da área.

No Brasil o nome da filosofa e matemática está presente na Revista Brasileira de História, Educação e Matemática, do Instituto Federal de São Paulo. Que você pode conferir aqui.

Conforme sugere seu nome, aceita trabalhos de História da Matemática, Educação Matemática e de Matemática (pura e aplicada). A revista foi oficialmente criada em 8 de março de 2016. - HIPÁTIA - Revista Brasileira de História, Educação e Matemática -

Fonte:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46501897

https://rainhastragicas.com/2017/03/07/hipatia-de-alexandria/

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/565656-hipatia-a-primeira-mulher-vitima-de-um-crime-politico


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