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Petróleo e terras raras: avanço dos EUA coloca Brasil no centro da disputa por recursos estratégicos

Movimentos recentes de Washington sobre o petróleo venezuelano e a cadeia de terras raras em Goiás revelam como recursos naturais voltaram ao centro da competição entre as grandes potências. Para o Brasil, o desafio é transformar riqueza mineral em desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.

A disputa internacional por recursos naturais está entrando em uma nova fase. Se durante grande parte do século XX petróleo, carvão, ferro e outros minerais foram fundamentais para a industrialização e para o poder militar das grandes potências, no século XXI uma nova lista de matérias-primas ganhou importância estratégica: lítio, níquel, cobalto, grafita e, especialmente, os chamados elementos de terras raras.

O assunto está no centro da edição desta quinta-feira, 3 de setembro, do programa Brasil no Mundo, da TV Brasil. Segundo a Agência Brasil, a atração analisa a expansão dos interesses dos Estados Unidos sobre recursos estratégicos no continente americano, relacionando dois movimentos recentes: a ampliação da presença norte-americana no setor petrolífero venezuelano e a entrada de recursos ligados ao governo dos Estados Unidos na cadeia de terras raras produzidas no Brasil.

Por que as terras raras se tornaram tão importantes?

Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente elementos extremamente escassos na natureza. O termo identifica um conjunto de 17 elementos químicos que apresentam propriedades importantes para diferentes aplicações tecnológicas. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Esses materiais aparecem em equipamentos eletrônicos, motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas de telecomunicações, equipamentos médicos, robótica, indústria aeroespacial e tecnologias militares. Alguns são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, utilizados desde veículos elétricos até equipamentos sofisticados de defesa.

A importância geopolítica das terras raras está relacionada não apenas à existência das jazidas, mas principalmente à capacidade de processar, separar e transformar os minerais em componentes industriais.

Nesse ponto existe uma forte concentração internacional. Dados da Agência Internacional de Energia indicam que, em 2024, a China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras usadas em ímãs, 91% de seu refino e cerca de 94% da produção de ímãs permanentes sinterizados. Isso transforma a diversificação das cadeias de abastecimento em uma questão econômica e de segurança nacional para Estados Unidos, União Europeia e outras potências industriais.

Goiás entra no tabuleiro geopolítico

É nesse cenário que a mina Pela Ema, operada pela Serra Verde em Minaçu, Goiás, ganhou importância internacional.

A operação brasileira produz elementos utilizados em ímãs de alta performance. Em agosto, o governo norte-americano anunciou uma estrutura financeira de aproximadamente US$ 1,55 bilhão relacionada ao fornecimento da Serra Verde. Desse total, US$ 750 milhões estão ligados diretamente ao órgão de defesa dos Estados Unidos, enquanto há ainda uma linha de financiamento bancário de US$ 500 milhões e um compromisso governamental de compra de pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras durante cinco anos.

O acordo prevê que uma estrutura criada para a operação adquira a produção da primeira fase da Serra Verde. Paralelamente, a empresa norte-americana USA Rare Earth negociou a aquisição do grupo responsável pelo empreendimento brasileiro, em uma operação anunciada por aproximadamente US$ 2,8 bilhões.

A dimensão estratégica fica ainda mais evidente porque a Pela Ema consegue produzir comercialmente os quatro principais elementos de terras raras utilizados em ímãs — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — fora do eixo asiático.

Ter o mineral não significa dominar a tecnologia

Para o Brasil, porém, existe uma diferença fundamental entre possuir recursos minerais e controlar toda a cadeia tecnológica associada a eles.

A Agência Nacional de Mineração reconhece que o país possui importante potencial geológico em minerais críticos, com ocorrências especialmente em estados como Goiás, Minas Gerais, Pará, Bahia e Amazonas. O problema é que boa parte do valor econômico desses recursos surge depois da mineração: no beneficiamento avançado, na separação química, no refino e, posteriormente, na fabricação de componentes tecnológicos.

terras raras

Desde o período colonial, grande parte da inserção econômica do território brasileiro esteve relacionada à exportação de produtos primários. Açúcar, ouro, café, borracha, minério de ferro e outras commodities tiveram enorme importância em diferentes momentos da história.

No século XXI, a possibilidade de repetir esse modelo com minerais utilizados em tecnologias avançadas desperta uma nova discussão: o Brasil será apenas fornecedor de matéria-prima ou conseguirá transformar sua riqueza mineral em ciência, indústria, empregos qualificados e tecnologia?

A própria ANM destaca que um dos principais riscos para o país não está na falta de recursos geológicos, mas na possibilidade de continuar exportando materiais pouco processados enquanto as etapas de maior valor agregado permanecem no exterior.

Do petróleo às terras raras

A movimentação norte-americana sobre os minerais brasileiros acontece simultaneamente a uma expansão dos interesses dos Estados Unidos no setor petrolífero venezuelano.

A Venezuela possui algumas das maiores reservas conhecidas de petróleo do planeta. Em setembro, Washington anunciou novos acordos relacionados à exploração e ao aumento da produção venezuelana, envolvendo empresas internacionais e interesses norte-americanos. O Departamento de Energia dos Estados Unidos afirma que os entendimentos recentes ampliam investimentos e a participação americana no setor energético do país sul-americano.

A aproximação reforça algo conhecido pela história contemporânea: recursos naturais e política internacional caminham juntos.

Durante o século XX, o petróleo tornou-se essencial para transportes, indústria, produção de energia e capacidade militar. Garantir acesso a reservas petrolíferas passou, portanto, a fazer parte da estratégia das grandes potências.

No século XXI, o petróleo continua extremamente relevante, mas passou a dividir espaço com minerais necessários à digitalização, à eletrificação dos transportes, à inteligência artificial, às energias renováveis e à indústria de defesa.

Em outras palavras, a competição internacional não ocorre apenas por territórios. Ela envolve também quem controla as minas, o financiamento, o processamento, as tecnologias e as cadeias globais de abastecimento.

Estados Unidos e China disputam cadeias produtivas

O interesse norte-americano nas terras raras brasileiras precisa ser entendido também no contexto da competição econômica e tecnológica entre Estados Unidos e China.

A concentração chinesa no processamento desses elementos tornou-se uma vulnerabilidade para indústrias ocidentais. Em 2025, controles chineses sobre exportações de determinados elementos e produtos relacionados às terras raras chegaram a provocar dificuldades de abastecimento para empresas industriais em outros países.

Desde então, governos e empresas vêm buscando fornecedores alternativos.

Nesse cenário, países como Austrália, Estados Unidos e Brasil ganharam importância. Entretanto, construir novas minas é apenas uma parte da solução. A produção de metais, ligas especiais e ímãs continua muito mais concentrada do que a própria mineração, o que demonstra que a verdadeira disputa ocorre pelo controle de toda a cadeia tecnológica.

Brasil começa a construir uma política para minerais estratégicos

O avanço internacional sobre esses recursos também acelerou o debate político brasileiro.

Em 2 de setembro, justamente um dia antes da exibição do programa da TV Brasil que motivou esta pauta, o Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, enviando o projeto para sanção presidencial.

A proposta prevê até R$ 7 bilhões em instrumentos de incentivo, incluindo recursos destinados ao beneficiamento e à transformação de minerais dentro do território brasileiro. Também estabelece mecanismos relacionados a pesquisa, inovação, rastreabilidade e industrialização.

A medida dialoga diretamente com a questão central dessa nova corrida mineral: não basta descobrir jazidas.

O desafio brasileiro será desenvolver universidades, centros de pesquisa, tecnologias de separação e refino, indústria química especializada, fabricação de ligas e produção de componentes tecnológicos.

Caso consiga avançar nessas etapas, o país poderá aproveitar suas reservas para ocupar uma posição de maior relevância na transição energética e tecnológica mundial. Caso contrário, corre o risco de repetir uma velha estrutura econômica: exportar recursos naturais e importar posteriormente produtos industriais produzidos com as mesmas matérias-primas.

Uma disputa que ajuda a compreender o século XXI

O episódio envolvendo as terras raras brasileiras mostra como História, Ciência e Economia estão profundamente conectadas.

A ciência explica as propriedades que tornam determinados elementos indispensáveis para motores elétricos, sistemas digitais e equipamentos militares. A economia determina onde esses materiais serão processados e onde ficará a maior parte do valor produzido. E a História demonstra que o controle de recursos estratégicos sempre esteve relacionado às disputas de poder entre Estados.

Por isso, acompanhar o interesse de Estados Unidos, China e outras potências sobre os recursos brasileiros significa observar uma questão que vai muito além da mineração.

Está em discussão qual posição o Brasil pretende ocupar na economia tecnológica do século XXI: fornecedor de matérias-primas ou participante ativo da produção de conhecimento, tecnologia e bens de alto valor agregado.


Fonte que originou a pauta: Agência Brasil — Avanço dos EUA sobre recursos estratégicos pauta o Brasil no Mundo, publicada em 3 de setembro de 2026.

Link da matéria original: Agência Brasil — acessar a publicação original

Fontes complementares consultadas: Agência Nacional de Mineração (ANM), Ministério de Minas e Energia, Agência Internacional de Energia (IEA), Senado Federal, registros da SEC e comunicados oficiais relacionados à Serra Verde e à política energética norte-americana.

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Jason Gunner, apaixonado por internet e História, é licenciado em História e Geografia, com especializações em História Antiga, Gamificação e Educação 4.0. Com mais de 10 anos de experiência, leciona Geografia no Colégio Espaço Verde desde 2022.

 

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Jason J. Guedes Jr.

Jason J. Guedes Jr.

Professor e Escritor

Jason Guedes, apaixonado por internet e História, é licenciado em História e Geografia, com especializações em História Antiga, Gamificação e Educação 4.0. Com mais de 10 anos de experiência, leciona Geografia no Colégio Espaço Verde desde 2022.

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