A intelectual, ativista e professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) Zélia Amador de Deus faleceu aos 74 anos, na cidade de Belém (PA), nesta terça-feira (8). Reconhecida nacional e internacionalmente por sua brilhante contribuição acadêmica e por sua militância incansável, Zélia deixa um legado histórico e incontestável na defesa implacável dos direitos humanos, no avanço da luta antirracista e na salvaguarda dos povos tradicionais da região amazônica, inscrevendo definitivamente seu nome na história contemporânea do Brasil.
Trajetoria Antiracista da Profª Zélia
Pesquisadora dedicada e arguta das ciências sociais, Zélia Amador de Deus desempenhou um papel central, pioneiro e estruturante na organização, consolidação e no fortalecimento dos movimentos sociais na Região Norte do país. Ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), instituição que se consolidou ao longo das décadas como um pilar fundamental para a denúncia sistemática e o enfrentamento firme ao racismo estrutural, institucional e cotidiano na Amazônia.
Sua trajetória esteve intrinsecamente ligada à resistência quilombola, periférica e dos povos da floresta, prestando suporte político, jurídico e intelectual a comunidades que historicamente lutam pela demarcação de seus territórios ancestrais, pela preservação de sua rica memória cultural e pela garantia efetiva de direitos básicos de cidadania perante o Estado brasileiro.
Do ponto de vista histórico, educacional, sociológico e geopolítico, a atuação pública e acadêmica de Zélia transcende amplamente as fronteiras regionais e estaduais, alcançando relevância nacional. A luta antirracista na Amazônia carrega contornos geopolíticos singulares, complejos e urgentes, uma vez que o desrespeito sistemático aos direitos territoriais de populações negras, ribeirinhas, indígenas e quilombolas está frequentemente associado a pressões econômicas predatórias, conflitos agrários violentos, grilagem de terras públicas e exploração desmedida e ilegal dos recursos naturais da floresta. Ao vincular de maneira indissociável a agenda de combate ao racismo à preservação ambiental, à justiça socioespacial e à soberania dos povos amazônicos, Zélia Amador de Deus projetou o debate regional para o centro das discussões globais sobre justiça climática, desigualdade social estrutural e direitos humanos fundamentais.
No âmbito estritamente educacional e universitário, sua passagem marcante pela Universidade Federal do Pará transformou profundamente gerações de estudantes, pesquisadores, professores e ativistas sociais. Como docente e pesquisadora, Zélia foi pioneira na introdução, consolidação e aprofundamento de debates cruciais sobre a diversidade étnico-racial dentro do ensino superior brasileiro, desafiando abertamente estruturas acadêmicas tradicionais e eurocêntricas e abrindo espaço vital para a construção de um conhecimento plural, descentralizado e profundamente enraizado na realidade social e nos dilemas do país.
Sua voz firme, sua erudição e sua produção intelectual incisiva ajudaram a desconstruir mitos persistentes sobre a suposta harmonia racial brasileira, escancarando publicamente as violências físicas e simbólicas a que a população negra e amazônida é historicamente submetida.
O impacto profundo de sua liderança inegável e de seu ativismo intransigente também reverbera com força nas esferas das relações internacionais e das políticas públicas voltadas para a reparação histórica e a promoção da igualdade racial.
Ao dialogar ativamente com redes globais de direitos humanos, movimentos sociais internacionais e organismos multilaterais, ela levou as pautas urgentes da Amazônia negra para grandes fóruns de debate globais, demonstrando com clareza cristalina que a crise socioambiental enfrentada pela região não pode ser dissociada das opressões históricas seculares de classe, gênero e raça. Para a professora Zélia, a defesa intransigente da floresta em pé e a defesa intransigente dos direitos dos povos negros e quilombolas eram faces absolutamente idênticas e inseparáveis da mesma luta civilizatória.
Recentemente, em 18 de agosto, a professora foi comoventemente homenageada em vida pela UFPA com o plantio de uma árvore em seu reconhecimento e honra, um gesto profundamente simbólico que reflete com exatidão a profundidade de suas raízes acadêmicas, institucionais e humanas na instituição de ensino.

Embora sua partida infeliz represente uma perda trágica e irreparável para o pensamento crítico, para a academia e para os movimentos sociais brasileiros, seu compromisso ético inegável, sua coragem política inabalável e sua imensa generosidade intelectual permanecem absolutamente vivos. Eles constituem, sem sombra de dúvida, uma referência moral e teórica incontornável para compreender a complexa interseção entre raça, gênero, terra, poder e democracia no Brasil e no mundo contemporâneo.
Fonte: Agência Brasil — Últimas Notícias





